SUBMISSÃO À LIDERANÇA PASTORAL: EXPOSIÇÃO DE HEBREUS 13.17
Pr Luciano R. Peterlevitz – Comunidade Aba Pai (Limeira), 11.04.2019, 20:30 às 21:30.
Hebreus 13.17:Obedecei a vossos líderes, sendo-lhes submissos, pois eles estão cuidando de vós, como quem há de prestar contas; para que o façam com alegria e não gemendo, pois isso não vos seria útil.(Almeida Século 21).
Introdução: entendendo os desafios atuais acerca da autoridade pastoral
Sem dúvida, atualmente a autoridade espiritual e eclesiástica enfrenta sérios desafios. Por um lado, há um tipo de liderança totalitária (líderes que dizem ter a última palavra, e se apresentam como se fossem Deus). John Piper assevera corretamente: “a autoridade do pastor sobre a Igreja não é absoluta e qualquer liderança terrena deve estar submissa à Palavra de Deus”.[1]
Por outro lado, muitos crentes não estão dispostos a obedecer a liderança constituída por Deus. Isso é um reflexo de nossa sociedade pós-moderna, que é rebelde contra qualquer tipo de autoridade.
Destaca-se também, nos dias de hoje, o pluralismo religioso, que também atinge o mundo evangélico. Tal pluralismo tem destruído a autoridade pastoral. Há vários mercados da fé. Se a ovelha for confrontada pelo pastor, ela poderá ir para outra igreja “mais interessante”.
É mais fácil eu ouvir um pastor pela TV do que ouvir um pastor que pessoalmente fica me cobrando para eu produzir frutos.
- Entendendo o argumento da epístola aos Hebreus
Ênfase principal da epístola: A superioridade de Cristo em relação aos profetas do Antigo Testamento, aos anjos, a Moises e aos sacrifícios oferecidos pelos sacerdotes da antiga aliança. Os sacrifícios do Antigo Testamento eram sombras da realidade do sacrífico de Cristo.
Propósito: Animar os hebreus cristãos a perseverarem na fé da nova aliança, frente às perseguições engendradas por outros judeus seguidores do judaísmo. O autor exorta seus leitores a continuarem firmes na fé no Cristo que cumpriu as exigências rituais e cerimoniais da antiga aliança (cf. 10.23; veja também 2.1; 3.12; 4.1; 4.14; 6.11-12; 12.1).
A carta aos Hebreus é uma “palavra de exortação” (13.22).
- Entendendo o contexto de Hebreus 13.17
Hebreus 13.1-19 compõe a última parte da epístola, onde se declara que “as implicações práticas da lealdade perseverante são uma vida equilibrada nas áreas pessoal, conjugal e comunitária.”[2]
Quando não somos leais na vida familiar e na vida comunitária, dificilmente seremos leais à liderança espiritual.
- Entendendo Hebreus 13.17
O que significa submeter-se à liderança pastoral?
“Obedecei”. O significado do verbo grego peitho: “ser persuadido”; “deixar-se persuadir; ser induzido a crer: ter fé (em algo)”; “acreditar”; “ser persuadido de algo relativo a uma pessoa”; “escutar, obedecer, submeter-se a, sujeitar-se a”.
Obedecer é acreditar na orientação pastoral, ser persuadido por ela, e segui-la prontamente. Se estou convencido de que a orientação pastoral é verdadeira (baseada na Palavra de Deus), então devosegui-la, assim como obedeço uma orientação médica, por acreditar que ela é verdadeira.
Calvino explica:
…é preciso observar que o apóstolo se preocupa somente com aqueles que fielmente exercem seu ofício. Aqueles que nada possuem além de um título, e ainda aqueles que usam mal o título de pastor para a destruição da igreja, merecem mui pouca reverência e menos confiança ainda… Não direi mais nada para descrevê-los, senão que no momento farei este único comentário: que quando se nos ordena que obedeçamos a nossos pastores, que cuidadosa e sabiamente distingamos aqueles que são genuína e fielmente líderes, porque se porventura honrarmos indiscriminadamente a qualquer um ao sabor de nossos gostos, poderemos estar prejudicando os bons…”[3]
“Obedecei a vossos líderes”. Observe: são “vossos líderes”. Não é qualquer pessoa. Eles são nossos líderes, ou seja, estamos debaixo da autoridade deles.
O termo “líderes” (gr. hegeomai, “conduzir, ir adiante, ser um líder”), é traduzido pela ARA corretamente como “guias”. Eles são guias: conduzem o povo aos caminhos da vontade de Deus. Eles estão adiante: através de exortações e apelos, fundamentados na Palavra de Deus, eles levam a igreja a entender a visão e os planos de Deus. Se eles correm, a igreja corre. Se eles andam, a igreja anda. Se eles param, a igreja para.
O v.7 faz duas declarações sobre os “guias”.
- A primeira declaração diz respeito à fonte do ensino deles: “vos pregaram a palavra de Deus”. Não se trata, portanto, de submeter-se às ideias de um homem, mas sim, à Palavra de Deus. Se você abre a Bíblia, e diz para mim o que a Bíblia diz sobre determinado assunto, não me resta outra alternativa, a não ser a obediência.
- A segunda declaração diz respeito à vida deles: “observando-lhes atentamente o resultado da vida, imitai-lhes a fé”. Não há argumentos contra alguém que vive os valores do evangelho. O verbo “observando atentamente” (gr. anathaoreo) “ocorre somente aqui e em Atos 17.23 no Novo Testamento, e subentende observação cuidadosa”[4] Não somente olhamos para Jesus, autor e consumador da nossa fé (Hb 12.2), mas também precisamos olhar para aqueles bons exemplos que nos instigam a seguir Jesus. Pessoas precisam de pessoas. Outro ponto importante: a imitação proposta aqui “não é nenhuma cópia mecânica das ações dos outros, mas uma chamada para emular a fé que tiveram”[5].
Tendo essas considerações em mente, voltemos a Hebreus 13.17: “sendo-lhes submissos”. O verbo “submeter” é o grego hupeiko, “não resistir mais, mas entregar-se, render-se”. A submissão uns aos outros é uma das qualidades cristãs: Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo (Ef 5.21). Submeter-se aos outros não significa fazer tudo o que outros querem. Sujeitamo-nos “no temor de Cristo”.
Submissão não equivale à obediência incondicional. Nem significa que vamos estar debaixo de uma “cobertura espiritual”. Significa, sim, que vamos ser submissos ao líder espiritual, quando ele: 1) nos der alguma orientação baseada na Palavra de Deus; 2) quando ele, com amor, corrigir alguma postura nossa, à luz da Palavra de Deus.
Exemplos de insubmissão:
- Tomar decisões importantes na vida sem o conselho pastoral (o lema é: “na minha vida mando eu”).
- Não pedir aconselhamento pastoral diante de alguma dificuldade e só buscar ajuda quando a situação já se agravou muito.
- Ficar bravo quando o pastor der alguma orientação ou quando o pastor fizer alguma correção. Contra argumentar, mesmo quando a palavra pastoral está claramente fundamentada na Palavra de Deus.
- Ficar bravo quando o pastor, investido de autoridade espiritual, diz algo do tipo: “você chegou atrasado, então não vai tocar no louvor hoje”; “você precisa deixar esse cargo ou ministério, para cuidar de sua vida espiritual”.
- Atacar a liderança pastoral pelas costas, falando aos outros sobre o pastor. Covardia: falar da pessoa aos outros, e não ter coragem para falar à própria pessoa.
Por que se submeter à liderança pastoral?
Porque a liderança pastoral cuida do rebanho
“pois eles estão cuidando de vós” / “pois velam por vossa alma” (ARA).“Cuidar” ou “velar” (gr.agrupneo): “estar acordado, permanecer acordado, vigiar”; “estar atento”. “Eles literalmente perdem sono por causa do bem-estar espiritual dos crentes”.[6]Os pastores ficam atentos ao que acontece na vida das ovelhas. Além disso, enfrento diariamente uma pressão interior, a saber, a minha preocupação com todas as igrejas (2Co 11.28; cf. 1Pe 5.2).
Porque a liderança pastoral há de prestar contas
“como quem há de prestar contas”. Porque nós, pastores, às vezes parecemos duros ou severos? Porque nós vamos prestar contas ao Dono das ovelhas.
Porque a liderança pastoral precisa ser desenvolvidacom alegria
“para que o façam com alegria e não gemendo”. Muitos acham que a vocação do pastor é sofrer. Mas essa passagem bíblica diz o contrário. A igreja precisa permitir que o pastor desenvolva o seu ministério com alegria. Neste verso, “gemer” tem a ver com os sofrimentos e frustrações do pastor decorrentes das insubmissões, ingratidões e rebeldias das ovelhas.
Porque a insubmissão traz sérios prejuízos à igreja de Cristo
“pois isso não vos seria útil” /“pois isso não seria proveitoso para vocês” (NVI) / “e isso não ajudará vocês em nada” (NTLH). A palavra grega alusiteles refere-se a algo “sem proveito, prejudicial, pernicioso”. Observe: a insubmissão traz sérios prejuízos não somente ao pastor (ao seu ânimo, ou até à sua saúde), mas também à própria igreja. Há muitos pastores frustrados, porque todo o seu trabalho está voltado a apagar incêndios na igreja, gerados por crentes insubmissos, quando na verdade, todo o seu esforço deveria estar voltado para treinar os santos para o obra do ministério (Ef 4.12). Quem mais perde é a igreja.
Conclusão
A submissão à autoridade pastoral é claramente ensinada nas Escrituras, desde que todos os ensinos do pastor estejam fundamentados na Palavra de Deus.
“Só se submeta ao seu pastor se ele for submisso à Bíblia” (John
Piper).[7]
E, se o seu pastor for submisso à Bíblia, você não tem outra escolha: será
necessário submeter-se a ele.
[1] PIPER, John. Disponível em https://guiame.com.br/gospel/mundo-cristao/so-se-submeta-ao-seu-pastor-se-ele-submisso-biblia-diz-john-piper.html. Acessado em 08.04.2019.
[2] PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Novo Testamento. 2. Ed. Revista e Atualizada. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 505.
[3] CALVINO, João. Hebreus. 1. Ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1997, p. 396.
[4]GUTHRIE, Donald. Hebreus: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 254.
[5] GUTHRIE, Donald. Hebreus, p. 254.
[6] KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento, Exposição de Hebreus. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 596.
[7] PIPER, John. Disponível em https://guiame.com.br/gospel/mundo-cristao/so-se-submeta-ao-seu-pastor-se-ele-submisso-biblia-diz-john-piper.html. Acessado em 08.04.2019.