A IMPORTÂNCIA DO LIVRO DOS SALMOS PARA OS NOSSOS DIAS

Postado em 17 de agosto de 2020 por

Categorias: Estudos

Pr Luciano R. Peterlevitz

Introdução

De todos os livros da Bíblia, certamente o livro dos Salmos é o mais conhecido. Trata-se de uma das mais inspiradoras fontes de meditação e devoção do judaísmo e do cristianismo. Pois, nos Salmos, ainda ouvimos o eco de desespero de um sofredor, mas também ouvimos a certeza da vitória que vem do Senhor. Quando lemos os Salmos, ouvimos um brado de angústia: “Deus meu, Deus, por que me desamparaste?” (Sl 22.1). Por outro lado, nos Salmos encontramos o Pastor dos Salmos, o Supremo Consolador: “O Senhor é o meu pastor, e de nada terei falta” (Sl 23.1). Quem de nós nunca recitou essa oração?

“…a maior parte das Escrituras fala conosco; os Salmos falam por nós.” Atanásio, teólogo e bispo egípcio do século IV.[1]

Nos Salmos, deparamo-nos com a mais profunda depressão: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim?” (Sl 42.5,11; 43.5). Mas também vislumbramos a mais viva esperança: “Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu.”. Nos Salmos, estamos no “dia da tribulação” (Sl 20.1), e também dos grandes livramentos de Deus (Sl 118.24). Salmos é o “clamor dos aflitos” (Sl 9.12), e o louvor dos confiantes (Sl 56.10). Salmos é a “tristeza no coração” (Sl 13.2), e ao mesmo tempo a exultação do espírito (Sl 16.9). No Salmos, lágrimas são derramadas abundantemente (Sl 6.6), mas todas elas são recolhidas por Deus (Sl 56.8). Nos Salmos, estamos na noite escura da alma: “Até quando, SENHOR? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando ocultarás de mim o rosto?” (Sl 13.1). Mas já podemos avistar o amanhecer de um novo dia: “Ao anoitecer, pode vir o choro, mas a alegria vem pela manhã” (Sl 30.5).

Martinho Lutero afirmou que o Saltério é uma pequena Bíblia, pois contém tudo o que é afirmado no restante da Palavra de Deus.[2] De fato, nos Salmos leem-se todos os atributos de Deus que são mencionados em outros livros da Bíblia (exemplo: Sl 139). O Saltério também revela o propósito da Criação, a saber, adorar o Criador (exemplo:Sl 8).

Portanto, o livro dos Salmos é um manual de teologia escrito na forma de oração. Quando falamos de Deus, e entendemos a grandiosidade do seu poder e a profundidade do seu amor, não nos resta outra atitude, senão adorá-Lo com canções de louvores. Não podemos nos atrever a falar sobre de Deus se não estamos dispostos a falar com Deus.

Nome do Livro

Na Bíblia Hebraica, o livro é intitulado tehilim, “louvores”. Salmos, pois, é o SeferTehilim, “Livro dos Louvores”. 

O nome do livro em nossas versões, “Salmos”, procede do grego Psalmos, título dado ao livro na antiga tradução que os judeus fizeram do hebraico para a língua grega, a Septuaginta. O termo Psalmos deriva-se de psallo, “dedilhar” (um instrumento de cordas). Outra versão da Septuaginta, o CodexAlexandrinus, intitulou o livro de “Saltério” (grego Psaltérion).

Como se nota no título do livro, Salmos são louvores. A maioria desses cânticos são orações.O fiel louva ao Senhor, e também fala em oração ao seu Deus. A adoração é mais do que uma música. É uma oração.

Estrutura

O Saltério está dividido em cinco livros:

1º Livro: 1-41

2º Livro: 42-72

3º Livro: 73-89

4º Livro: 90-106

5º Livro: 107-150 

Cada um dos Livros termina com uma expressão de louvor a Deus (doxologia). Vejamos:

  • Encerramento do Livro 1: “Bendito seja o SENHOR, Deus de Israel, da eternidade para a eternidade! Amém e amém!” (Sl 41.13). 
  • Encerramento do Livro 2: “Bendito para sempre o seu glorioso nome, e da sua glória se encha toda a terra. Amém e amém!” (Sl 72.19).
  • Encerramento do Livro 3: “Bendito seja o SENHOR para sempre! Amém e amém!” (Sl 89.52).
  • Encerramento do Livro 4: “Bendito seja o SENHOR, Deus de Israel, de eternidade a eternidade; e todo o povo diga: Amém! Aleluia!” (Sl 106.48).
  • Encerramento do Livro 5: “Todo ser que respira louve ao SENHOR. Aleluia!” (Sl 150.6).

De acordo com a antiga tradição judaica, a divisão em cinco livros teria sido feita na época do pós-exílio em referência aos cinco primeiros livros de Moisés (Torah). O Saltério é considerado um segundo “Pentateuco”. Os antigos judeus criaram a seguinte máxima: “Como Moisés deu cinco livros de leis para Israel, assim também Davi deu cinco livros de Salmos para Israel”.[3]

O Salmo 1 e o 150 emolduram o Livro dos Salmos. Em uma ponta da obra do Saltério, está o Salmo 1. Portanto, o Salmo 1 propõe o padrão para o homem viver (a lei do Senhor), e o Salmo 150 propõe a razão para o homem viver (adorar a Deus). Coelho Filho apresenta uma ótima explicação para esse arranjo estrutural: “O Saltério foi arrumado de maneira que seus dois limites marcam muito bem a sua linha teológica: o padrão para o homem viver e a razão pela qual deve o homem viver.”[4]

Salmos 1 e 2 como introdução ao Livro dos Salmos

Os Salmos 1 e 2 estão inter-relacionados. São duas peças que formam um conjunto. Ambos são margeados pela palavra ’ashre, “bem-aventurado” (1.1; 2.12). O Salmo 1 abre-se apresentando ao homem “bem-aventurado” (1.1), e o Salmo 2 fecha-se referindo-se a ele (2.12). O Salmo 1 refere-se à instrução de Javé. O Salmo 2 refere-se ao Messias de Javé. O Salmo 1 afirma que a base da existência do homem bem-aventurado é a torah de Javé, enquanto que o Salmo 2 afirma que a esperança desse bem-aventurado é o Messias.

Portanto, os Salmos 1 e 2, formam, juntos, uma bela introdução ao livro dos Salmos. Quem entra pelos Salmos necessariamente precisa passar por esses dois salmos introdutórios, que são, na verdade, a lente pela qual todo o Saltério precisa ser lido.

O fiel que ora e canta os Salmos precisa fundamentar sua vida na instrução de Javé e firmar sua esperança no Messias de Javé.

A IMPORTÂNCIA DO SALTÉRIO

Compreendemos a relevância dos Salmos para nós quando identificamos os vários tipos de salmos. Cada um desses tipos de Salmo tem muito a ver com nossas experiências cotidianas.

Os tipos de Salmos

Súplicas (lamentos)

As súplicas, ou lamentos, são as orações dos aflitos e angustiados. Diante das calamidades da vida, ou diante das derrotas (seja no âmbito nacional ou pessoal), ou diante das perseguições engendradas pelos ímpios, os salmistas levantavam sua voz a Javé, buscando socorro e alívio.

Os Salmos de súplicas apresentam as seguintes características (veja essas características no Salmo 56):

  1. Um grito ou lamento dirigido a Deus. Os sofredores levantam as vozes e clamam a Deus por socorro (Sl 3.4; 4.1; 18.6; 142.1). Eles gemem na presença de Deus (Sl 5.1; 12.5; 31.10). Comumente, indagam para Deus: “Por que?” (Sl 10.1; 74.11) ou “Até quando?” (Sl 13.1; 79.5; 80.4).
  2. Descrição da situação angustiante. Muitas vezes, os salmistas sentiam-se abandonados por Deus (cf. Sl 10.1 13.1; 22.1).
  3. Pedido pela intervenção de Deus. Alguns desses pedidos são expressos da seguinte forma: “Salva-me, Deus meu” (Sl 3.7). “Socorro Senhor” (Sl 12.1). Sl 44.26. “Levanta-te, Senhor” (Sl 3.7; 44.26; 74.22; cf. 44.23-26; 82.8). “Salva-me, Deus meu” (Sl 3.7; cf. 54.1; 109.26). “Restaura-nos, ó Deus (Sl 89.3; cf. 89.7,19).
  4. Confiança em Deus.  Os salmistas tinham fé na intervenção de Deus em sua situação caótica (veja, por exemplo: Sl 4; 11; 16; 23; 62; 91; 121; 125; 131). Muitas súplicas terminam com a certeza de que Deus atendeu o clamor dos suplicantes e intervirá na situação deles (Sl 5.11-12; 6.9; 54.7; 55.22).
  5. Afirmações acerca do futuro louvor que o salmista entoaria a Javé, quando fosse liberto. Mesmo em meio às mais angustiantes situações, os salmistas expressavam o desejo de louvar a Javé (Sl 7.17; 13.6; 22.24-31; 26.12; 74.21; 79.13; 80.19; 90.14; etc.).

As súplicas são classificadas em coletivas e em individuais.

1) Súplicas individuais: Sl 3-7; 11; 13; 16; 17; 22; 23; 26; 27; 28; 31; 35; 36; 38; 40; 41; 42; 51; 54-57; 59; 61; 62; 63; 64; 69; 70; 71; 86; 88; 92; 02; 109; 120; 130; 140-143.

2) Súplicas coletivas: Sl 12; 20; 21; 44; 60; 74; 79; 80; 83; 85; 89; 94; 106; 108; 123; 125; 131; 137. Sl 20.7: “Uns confiam em carros, outros, em cavalos; nós, porém, nos gloriaremos em o nome do SENHOR, nosso Deus”.

Hinos

Os Salmos hinícos adoram a Deus; exultam e celebram ao Senhor. Os seguintes elementos são comuns nesses salmos:

  1. Convite para adorar Javé. É a convocação do Salmo 100, por exemplo: “Celebrai com júbilo ao Senhor” (Sl 100.1).
  2. Os motivos da adoração ou a descrição dos atributos de Deus (seu amor, sua fidelidade, sua justiça, etc.). Comumente os Salmos hínicos descrevem as ações de Deus na história.
  3. Afirmação da fé, na forma de oração. Veja, por exemplo, os Salmos 33; 46; 48.14; 65.1; 84; 121. A fé e a adoração caminham juntas: “A ti, ó Deus, confiança e louvor em Sião!” (Sl 65.1). 

Os seguintes Salmos são categorizados como hinos: Sl 8; 15; 18; 19; 29; 33; 45-48; 65; 68; 72; 76; 84; 87; 93; 95-100; 101; 103; 104; 105; 110; 113; 114; 117; 121; 122; 132-136; 145-150.

Ação de Graças

Os Salmos de ação de graças são aqueles cujo agradecimento é essencial no poema: Sl 30; 32; 34[5]; 40; 66; 116; 118; 138. “Esses estão estreitamente ligados à queixas de indivíduos. Deviam ser empregados quando a crise fosse resolvida, e a reclamação, ouvida”.[6]

O verbo traduzido por “render graça” é o hebraico yadah. Essa palavra significa essencialmente um reconhecimento (confissão pública) dos atos de Deus na história.

Poemas de instrução e meditação

Os salmos de instrução os seguintes temas:

  1. As características do homem “bem-aventurado”. “Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios…” (Sl 1.1); “Bem-aventurado aquele que teme ao Senhor…” (Sl 128.1); etc. A expressão “bem-aventurado” também ocorre em outros tipos de Salmos, que não sejam “Salmos de meditação ou instrução”, mas no geral esses Salmos de instrução caracterizam tais “bem-aventurados” como pessoas que obedecem a torah (“instrução”) de Javé. 
  2. O temor ao Senhor como uma atitude fundamental dos fiéis (Sl 25.12; 85.9; 111.5,10; 128.1).
  3. A torah (“instrução”) e a Palavra de Deus como padrão da vivência dos fiéis (Sl 1.1-2; 19; 33.4,6-11; 119). A torah é o padrão para se avaliar a conduta de Israel (cf. Sl 78; 81).
  4. Exortação para se confiar em Deus ou afirmações de fé (Sl 37.3-5; 78.7; 90.1; 91; 112.7)
  5. A prosperidade e as bênçãos de Deus sobre os justos (Sl 1.3; 37.11; 85.12; 91.10-16; 112; 128)     
  6. A efemeridade da vida humana (Sl 39.4-6; 90.3-12).
  7. Juízo de Javé sobre os ímpios (Sl 1; 9; 10; Sl 37.13,17; 73.18-20).
  8. Os justos e os ímpios: diferentes caminhos, diferentes condutos, e diferentes destinos Sl 1; 37; 73.

Conclusão

Os Salmos são muito importantes porque revelam a grandeza e a majestade do Deus Altíssimo. Muitos dos hinos entoados pelos israelitas relatam as intervenções de Deus na história da salvação. Alguns poemas anunciam profeticamente a vinda do Messias Salvador (Sl 2, 16, 22, 110).

Nos salmos de lamento, os suplicantes relatam suas angustias e perplexidades, e ao mesmo tempo revelam a fonte da segurança de suas vidas e o fundamento da fé: Javé, a Rocha firme, o Abrigo em meio aos temporais.

O Saltério nos ensina a adorar e a orar. Nos Salmos, suplicamos, celebramos, rendemos graças e também somos instruídos pela lei do Senhor.

Leiamos os Salmos. Meditemos neles. Oremos junto com os salmistas. Que os louvores entoados no Saltério estejam em nossos lábios.

Louvai ao Senhor!


[1] Citado por Peterson, Eugene. Um pastor segundo o coração de Deus. Rio de Janeiro: Textus, 2001, p. 51.

[2] Martinho Lutero, citado por MAYS, James Luther.  Psalms.  Interpretation: A Bible Commentary for Teaching and Preaching. Louisville, Kentucky: John Knox Press, 1994, p. 1.

[3]Richard J. Clifford, Abingdon Old Testament Commentaries: Psalms 1-72, p. 15.

[4] COELHO FILHO, Isaltino Gomes. Teologia dos Salmos – princípios para hoje e sempre, p. 19.

[5] O Salmo 34 também pode ser classificado com um “salmo sapiencial”, ou salmo de instrução.

[6]LASOR, William S; HUBBARD, David A.; BUSH, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1999, p. 475.