A IMPORTÂNCIA DO LIVRO DOS SALMOS PARA OS NOSSOS DIAS
Pr Luciano R. Peterlevitz
Introdução
De todos os livros da Bíblia, certamente o livro dos Salmos é o mais conhecido. Trata-se de uma das mais inspiradoras fontes de meditação e devoção do judaísmo e do cristianismo. Pois, nos Salmos, ainda ouvimos o eco de desespero de um sofredor, mas também ouvimos a certeza da vitória que vem do Senhor. Quando lemos os Salmos, ouvimos um brado de angústia: “Deus meu, Deus, por que me desamparaste?” (Sl 22.1). Por outro lado, nos Salmos encontramos o Pastor dos Salmos, o Supremo Consolador: “O Senhor é o meu pastor, e de nada terei falta” (Sl 23.1). Quem de nós nunca recitou essa oração?
“…a maior parte das Escrituras fala conosco; os Salmos falam por nós.” Atanásio, teólogo e bispo egípcio do século IV.[1]
Nos Salmos, deparamo-nos com a mais profunda depressão: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim?” (Sl 42.5,11; 43.5). Mas também vislumbramos a mais viva esperança: “Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu.”. Nos Salmos, estamos no “dia da tribulação” (Sl 20.1), e também dos grandes livramentos de Deus (Sl 118.24). Salmos é o “clamor dos aflitos” (Sl 9.12), e o louvor dos confiantes (Sl 56.10). Salmos é a “tristeza no coração” (Sl 13.2), e ao mesmo tempo a exultação do espírito (Sl 16.9). No Salmos, lágrimas são derramadas abundantemente (Sl 6.6), mas todas elas são recolhidas por Deus (Sl 56.8). Nos Salmos, estamos na noite escura da alma: “Até quando, SENHOR? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando ocultarás de mim o rosto?” (Sl 13.1). Mas já podemos avistar o amanhecer de um novo dia: “Ao anoitecer, pode vir o choro, mas a alegria vem pela manhã” (Sl 30.5).
Martinho Lutero afirmou que o Saltério é uma pequena Bíblia, pois contém tudo o que é afirmado no restante da Palavra de Deus.[2] De fato, nos Salmos leem-se todos os atributos de Deus que são mencionados em outros livros da Bíblia (exemplo: Sl 139). O Saltério também revela o propósito da Criação, a saber, adorar o Criador (exemplo:Sl 8).
Portanto, o livro dos Salmos é um manual de teologia escrito na forma de oração. Quando falamos de Deus, e entendemos a grandiosidade do seu poder e a profundidade do seu amor, não nos resta outra atitude, senão adorá-Lo com canções de louvores. Não podemos nos atrever a falar sobre de Deus se não estamos dispostos a falar com Deus.
Nome do Livro
Na Bíblia Hebraica, o livro é intitulado tehilim, “louvores”. Salmos, pois, é o SeferTehilim, “Livro dos Louvores”.
O nome do livro em nossas versões, “Salmos”, procede do grego Psalmos, título dado ao livro na antiga tradução que os judeus fizeram do hebraico para a língua grega, a Septuaginta. O termo Psalmos deriva-se de psallo, “dedilhar” (um instrumento de cordas). Outra versão da Septuaginta, o CodexAlexandrinus, intitulou o livro de “Saltério” (grego Psaltérion).
Como se nota no título do livro, Salmos são louvores. A maioria desses cânticos são orações.O fiel louva ao Senhor, e também fala em oração ao seu Deus. A adoração é mais do que uma música. É uma oração.
Estrutura
O Saltério está dividido em cinco livros:
1º Livro: 1-41
2º Livro: 42-72
3º Livro: 73-89
4º Livro: 90-106
5º Livro: 107-150
Cada um dos Livros termina com uma expressão de louvor a Deus (doxologia). Vejamos:
- Encerramento do Livro 1: “Bendito seja o SENHOR, Deus de Israel, da eternidade para a eternidade! Amém e amém!” (Sl 41.13).
- Encerramento do Livro 2: “Bendito para sempre o seu glorioso nome, e da sua glória se encha toda a terra. Amém e amém!” (Sl 72.19).
- Encerramento do Livro 3: “Bendito seja o SENHOR para sempre! Amém e amém!” (Sl 89.52).
- Encerramento do Livro 4: “Bendito seja o SENHOR, Deus de Israel, de eternidade a eternidade; e todo o povo diga: Amém! Aleluia!” (Sl 106.48).
- Encerramento do Livro 5: “Todo ser que respira louve ao SENHOR. Aleluia!” (Sl 150.6).
De acordo com a antiga tradição judaica, a divisão em cinco livros teria sido feita na época do pós-exílio em referência aos cinco primeiros livros de Moisés (Torah). O Saltério é considerado um segundo “Pentateuco”. Os antigos judeus criaram a seguinte máxima: “Como Moisés deu cinco livros de leis para Israel, assim também Davi deu cinco livros de Salmos para Israel”.[3]
O Salmo 1 e o 150 emolduram o Livro dos Salmos. Em uma ponta da obra do Saltério, está o Salmo 1. Portanto, o Salmo 1 propõe o padrão para o homem viver (a lei do Senhor), e o Salmo 150 propõe a razão para o homem viver (adorar a Deus). Coelho Filho apresenta uma ótima explicação para esse arranjo estrutural: “O Saltério foi arrumado de maneira que seus dois limites marcam muito bem a sua linha teológica: o padrão para o homem viver e a razão pela qual deve o homem viver.”[4]
Salmos 1 e 2 como introdução ao Livro dos Salmos
Os Salmos 1 e 2 estão inter-relacionados. São duas peças que formam um conjunto. Ambos são margeados pela palavra ’ashre, “bem-aventurado” (1.1; 2.12). O Salmo 1 abre-se apresentando ao homem “bem-aventurado” (1.1), e o Salmo 2 fecha-se referindo-se a ele (2.12). O Salmo 1 refere-se à instrução de Javé. O Salmo 2 refere-se ao Messias de Javé. O Salmo 1 afirma que a base da existência do homem bem-aventurado é a torah de Javé, enquanto que o Salmo 2 afirma que a esperança desse bem-aventurado é o Messias.
Portanto, os Salmos 1 e 2, formam, juntos, uma bela introdução ao livro dos Salmos. Quem entra pelos Salmos necessariamente precisa passar por esses dois salmos introdutórios, que são, na verdade, a lente pela qual todo o Saltério precisa ser lido.
O fiel que ora e canta os Salmos precisa fundamentar sua vida na instrução de Javé e firmar sua esperança no Messias de Javé.
A IMPORTÂNCIA DO SALTÉRIO
Compreendemos a relevância dos Salmos para nós quando identificamos os vários tipos de salmos. Cada um desses tipos de Salmo tem muito a ver com nossas experiências cotidianas.
Os tipos de Salmos
Súplicas (lamentos)
As súplicas, ou lamentos, são as orações dos aflitos e angustiados. Diante das calamidades da vida, ou diante das derrotas (seja no âmbito nacional ou pessoal), ou diante das perseguições engendradas pelos ímpios, os salmistas levantavam sua voz a Javé, buscando socorro e alívio.
Os Salmos de súplicas apresentam as seguintes características (veja essas características no Salmo 56):
- Um grito ou lamento dirigido a Deus. Os sofredores levantam as vozes e clamam a Deus por socorro (Sl 3.4; 4.1; 18.6; 142.1). Eles gemem na presença de Deus (Sl 5.1; 12.5; 31.10). Comumente, indagam para Deus: “Por que?” (Sl 10.1; 74.11) ou “Até quando?” (Sl 13.1; 79.5; 80.4).
- Descrição da situação angustiante. Muitas vezes, os salmistas sentiam-se abandonados por Deus (cf. Sl 10.1 13.1; 22.1).
- Pedido pela intervenção de Deus. Alguns desses pedidos são expressos da seguinte forma: “Salva-me, Deus meu” (Sl 3.7). “Socorro Senhor” (Sl 12.1). Sl 44.26. “Levanta-te, Senhor” (Sl 3.7; 44.26; 74.22; cf. 44.23-26; 82.8). “Salva-me, Deus meu” (Sl 3.7; cf. 54.1; 109.26). “Restaura-nos, ó Deus (Sl 89.3; cf. 89.7,19).
- Confiança em Deus. Os salmistas tinham fé na intervenção de Deus em sua situação caótica (veja, por exemplo: Sl 4; 11; 16; 23; 62; 91; 121; 125; 131). Muitas súplicas terminam com a certeza de que Deus atendeu o clamor dos suplicantes e intervirá na situação deles (Sl 5.11-12; 6.9; 54.7; 55.22).
- Afirmações acerca do futuro louvor que o salmista entoaria a Javé, quando fosse liberto. Mesmo em meio às mais angustiantes situações, os salmistas expressavam o desejo de louvar a Javé (Sl 7.17; 13.6; 22.24-31; 26.12; 74.21; 79.13; 80.19; 90.14; etc.).
As súplicas são classificadas em coletivas e em individuais.
1) Súplicas individuais: Sl 3-7; 11; 13; 16; 17; 22; 23; 26; 27; 28; 31; 35; 36; 38; 40; 41; 42; 51; 54-57; 59; 61; 62; 63; 64; 69; 70; 71; 86; 88; 92; 02; 109; 120; 130; 140-143.
2) Súplicas coletivas: Sl 12; 20; 21; 44; 60; 74; 79; 80; 83; 85; 89; 94; 106; 108; 123; 125; 131; 137. Sl 20.7: “Uns confiam em carros, outros, em cavalos; nós, porém, nos gloriaremos em o nome do SENHOR, nosso Deus”.
Hinos
Os Salmos hinícos adoram a Deus; exultam e celebram ao Senhor. Os seguintes elementos são comuns nesses salmos:
- Convite para adorar Javé. É a convocação do Salmo 100, por exemplo: “Celebrai com júbilo ao Senhor” (Sl 100.1).
- Os motivos da adoração ou a descrição dos atributos de Deus (seu amor, sua fidelidade, sua justiça, etc.). Comumente os Salmos hínicos descrevem as ações de Deus na história.
- Afirmação da fé, na forma de oração. Veja, por exemplo, os Salmos 33; 46; 48.14; 65.1; 84; 121. A fé e a adoração caminham juntas: “A ti, ó Deus, confiança e louvor em Sião!” (Sl 65.1).
Os seguintes Salmos são categorizados como hinos: Sl 8; 15; 18; 19; 29; 33; 45-48; 65; 68; 72; 76; 84; 87; 93; 95-100; 101; 103; 104; 105; 110; 113; 114; 117; 121; 122; 132-136; 145-150.
Ação de Graças
Os Salmos de ação de graças são aqueles cujo agradecimento é essencial no poema: Sl 30; 32; 34[5]; 40; 66; 116; 118; 138. “Esses estão estreitamente ligados à queixas de indivíduos. Deviam ser empregados quando a crise fosse resolvida, e a reclamação, ouvida”.[6]
O verbo traduzido por “render graça” é o hebraico yadah. Essa palavra significa essencialmente um reconhecimento (confissão pública) dos atos de Deus na história.
Poemas de instrução e meditação
Os salmos de instrução os seguintes temas:
- As características do homem “bem-aventurado”. “Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios…” (Sl 1.1); “Bem-aventurado aquele que teme ao Senhor…” (Sl 128.1); etc. A expressão “bem-aventurado” também ocorre em outros tipos de Salmos, que não sejam “Salmos de meditação ou instrução”, mas no geral esses Salmos de instrução caracterizam tais “bem-aventurados” como pessoas que obedecem a torah (“instrução”) de Javé.
- O temor ao Senhor como uma atitude fundamental dos fiéis (Sl 25.12; 85.9; 111.5,10; 128.1).
- A torah (“instrução”) e a Palavra de Deus como padrão da vivência dos fiéis (Sl 1.1-2; 19; 33.4,6-11; 119). A torah é o padrão para se avaliar a conduta de Israel (cf. Sl 78; 81).
- Exortação para se confiar em Deus ou afirmações de fé (Sl 37.3-5; 78.7; 90.1; 91; 112.7)
- A prosperidade e as bênçãos de Deus sobre os justos (Sl 1.3; 37.11; 85.12; 91.10-16; 112; 128)
- A efemeridade da vida humana (Sl 39.4-6; 90.3-12).
- Juízo de Javé sobre os ímpios (Sl 1; 9; 10; Sl 37.13,17; 73.18-20).
- Os justos e os ímpios: diferentes caminhos, diferentes condutos, e diferentes destinos Sl 1; 37; 73.
Conclusão
Os Salmos são muito importantes porque revelam a grandeza e a majestade do Deus Altíssimo. Muitos dos hinos entoados pelos israelitas relatam as intervenções de Deus na história da salvação. Alguns poemas anunciam profeticamente a vinda do Messias Salvador (Sl 2, 16, 22, 110).
Nos salmos de lamento, os suplicantes relatam suas angustias e perplexidades, e ao mesmo tempo revelam a fonte da segurança de suas vidas e o fundamento da fé: Javé, a Rocha firme, o Abrigo em meio aos temporais.
O Saltério nos ensina a adorar e a orar. Nos Salmos, suplicamos, celebramos, rendemos graças e também somos instruídos pela lei do Senhor.
Leiamos os Salmos. Meditemos neles. Oremos junto com os salmistas. Que os louvores entoados no Saltério estejam em nossos lábios.
Louvai ao Senhor!
[1] Citado por Peterson, Eugene. Um pastor segundo o coração de Deus. Rio de Janeiro: Textus, 2001, p. 51.
[2] Martinho Lutero, citado por MAYS, James Luther. Psalms. Interpretation: A Bible Commentary for Teaching and Preaching. Louisville, Kentucky: John Knox Press, 1994, p. 1.
[3]Richard J. Clifford, Abingdon Old Testament Commentaries: Psalms 1-72, p. 15.
[4] COELHO FILHO, Isaltino Gomes. Teologia dos Salmos – princípios para hoje e sempre, p. 19.
[5] O Salmo 34 também pode ser classificado com um “salmo sapiencial”, ou salmo de instrução.
[6]LASOR, William S; HUBBARD, David A.; BUSH, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1999, p. 475.